"Por vezes a tua cara torna-se nítida e insuportável. Outras vezes, esbate-se e com o esbatimento vem-me a resignação de te ter perdido. Às vezes, esqueço-te. Ou ficas escondido numa casa, num quadro, numa árvore, de onde ressurgirás. Um dia olharei o quadro, a casa, a árvore, e lembrar-me-ei de ti. Mas cada vez haverá menos sítios onde te esconderes.
A tua face vem e atira-me sempre para o mesmo tempo, é uma face que o ódio esquece, anterior à deserção, a face de quem encontrou a primeira palavra, é essa que me olha nos sítios mais vulgares. Não te procuro: de repente, estás ali. Como uma arma. O límpido assassino."
...parece que é magia, quando outro escreve algo que me diz tanto. Que me diz tudo.
"Comecei a amar-te no dia em que te abandonei. Foram as palavras dele quando, dez anos depois, a encontrou por mero acaso no café. Ela sorriu, disse-lhe “olá, amo-te” mas os lábios só disseram “olá, está tudo bem?”. Ficaram horas a conversar, até que ele, nestas coisas era sempre ele a perder a vergonha por mais vergonha que tivesse naquilo que tinha feito (como é que fui deixar-te? como fui tão imbecil ao ponto de não perceber que estava em ti tudo o que queria?), lhe disse com toda a naturalidade do mundo que queria levá-la para a cama. Ela primeiro pensou em esbofeteá-lo e depois amá-lo a tarde toda e a noite toda, de seguida pensou em fugir dali e depois amá-lo a tarde toda e a noite toda, e finalmente resolveu não dizer nada e, lentamente, a esconder as lágrimas por dentro dos olhos, abandonou-o da mesma maneira que ele a abandonara uma década antes. Não era uma vingança nem sequer um castigo – apenas percebeu que estava tão perdida dentro do que sentia que tinha de ir para longe dali para ir para dentro de si. Pensou que provavelmente foi isso o que lhe aconteceu naquele dia longínquo em que a deixara, sozinha e esparramada de dor, no chão, para nunca mais voltar.
De tudo o que amo és tu o que mais me apaixona. Foram as palavras dela, poucos minutos depois, quando ele, teimoso, a seguiu até ao fundo da rua em hora de ponta. Estavam frente a frente, toda a gente a passar sem perceber que ali se decidia o futuro do mundo. Ele disse: “casei-me com outra para te poder amar em paz”. Ela disse: “casei-me com outro para que houvesse um ruído que te calasse em mim”. Na verdade nem um nem outro disseram nada disso porque nem um nem outro eram poetas. Mas o que as palavras de um (“amo-te como um louco”) e as palavras de outro (“amo-te como uma louca”) disseram foi isso mesmo. A rua parou, então, diante do abraço deles." De tudo o que amo és tu o que mais me apaixona.Foram as palavras dela, poucos minutos depois, quando ele, teimoso, a seguiu até ao fundo da rua em hora de ponta. Estavam frente a frente, toda a gente a passar sem perceber que ali se decidia o futuro do mundo. Ele disse: “casei-me com outra para te poder amar em paz”. Ela disse: “casei-me com outro para que houvesse um ruído que te calasse em mim”. Na verdade nem um nem outro disseram nada disso porque nem um nem outro eram poetas. Mas o que as palavras de um (“amo-te como um louco”) e as palavras de outro (“amo-te como uma louca”) disseram foi isso mesmo. A rua parou, então, diante do abraço deles."
Tento acreditar que assim seja. Quando leio palavras assim, que contam a nossa história, todo o meu sujeito poético se revolve em letras e palavras e vírgulas, que voam ao vento como folhas caídas. Depois sento-me em frente ao teclado... e apenas estas magistrais linhas me bastam para te recordar - naquelas noites infinitas que "de aromas e beijos se encheram" e em "que os nossos dois corpos cansados não adormeceram".
Porque às vezes sinto que por "entre os braços da noite" de tanto nos amarmos, vivendo morremos, preciso de te manter assim, vivo em mim. Ingenuamente desejo que sintas o mesmo. Secretamente... desejo que um dia os caminhos das nossas vidas se voltem a cruzar, quando tal não for fatal para ambos.
Por enquanto, tudo são memórias... e palavras.
E um corpo - o meu- à espera do teu.
"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor Minha estrela da tarde Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde Meu amor, meu amor Eu não tenho a certeza Se tu és a alegria ou se és a tristeza Meu amor, meu amor Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto."
"(...) ao contrário de ti, não quis dormir nessa noite: os teus beijos ainda estavam todos na minha boca e o desenho das tuas mãos na minha pele. Eu sabia que adormecer era deixar de sentir, e não queria perder os teus gestos no meu corpo um segundo que fosse. Então sentei-me na cama a ver-te dormir, e sorri como nunca sorrira antes dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de repente do meio do teu sono, estendeste o braço na minha direcção e chamaste baixinho. Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome."
Maria do Rosário Pedreira
(o título do post é meu...)
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
"Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma."
Carlos Ruiz Zafón
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
"Amavam-se como se ama um orgasmo. Viviam o que tinham para viver, sentiam o que tinham para sentir. E partiam. Não havia perguntas difíceis nem respostas desnecessárias. Sabiam que aquilo, como tudo, era passageiro. E faziam questão, por isso, de o tornar eterno."
“hoje a obsessão foi mais forte. escrever-te (...) eu suspendo a obsessão de te dizer todo o maravilhoso de ti, antes de te imaginar a breve ruga na face e ouvir-te dizer que tolice. não digas. se te sentasses aqui à braseira. e se te demorasses comigo um pouco e olhássemos em silêncio a grande noite que desce. em silêncio. não te diz...er mais nada. e tomar-te apenas a tua mão franzina na minha. e sorrires.”
Quando os nossos corpos se separaram olhámo-nos quase a desejar ser felizes. Vesti-me devagar, o corpo a ser ridículo. Disse espero que encontres um homem que te ame, e ambos baixámos o olhar por sabermos que esse homem não existe. Despedimo-nos. Tu ficaste para sempre deitada na cama e nua, eu saí para sempre na noite. Olhámo-nos pela última vez e despedimo-nos sem sequer nos conhecermos.
de José Luís Peixoto, in "A criança em ruínas"
Peço desculpa a todos pela demorada ausência, mas a vida nem sempre permite que me entregue ao prazer de escrever, ao prazer de partilhar as minhas viagens convosco. Voltarei assim que esteja mais disponível... mas tenho os meus "fiéis" leitores no coração viajante!!!
Espero que gostem das palavras que hoje deixo... não sendo minhas, desejava fortemente que fossem... eu poderia ter escrito isto, não me faltasse o engenho e a inspiração!